sábado, 22 de janeiro de 2011

Fairy Tales.

“Well, go get your shovel and we’ll dig a deep hole to burry the castle.” Paramore.

Eu observei enquanto ela vivia num conto de fadas, tão longe de tudo que nos seus sonhos eu não podia encontrá-la. Ela sonhava com castelos e vestidos, príncipes e bailes, dragões e lobos, alguém que a salvasse da torre mais alta do castelo mais alto. Ela imaginava que suportaria a casa de doces, a bruxa que a amaldiçoaria, o beijo no sapo, adormecer por séculos, imaginava que suportaria tudo para que viesse a alma mais brava salvá-la, protegê-la, fazer o sofrimento valer à pena. Entre desejos ocultos ela se viu com sete sábios, sete arcanjos alados de bom grado, se viu dançar entre os cines de um lago suspenso entre ares, viu como o pequeno descuido de perder um sapatinho qualquer a faria fluir por bailes e príncipes. Ela vivia um conto de fadas, as histórias que a faziam sonhar, os sonhos que sempre tinha. Ela se iludia que um dia seria princesa, que teria tudo, tudo aquilo que desejava. Ela era uma sonhadora. E o mundo nunca foi bom em lidar com sonhos, quanto mais aqueles contos de fadas. Aos poucos aquela minha pequena descobria que os castelos iam sendo demolidos por forças mais fortes que meros dragões alados, que os príncipes a largariam em meio ao acostamento de uma estrada com a promessa de voltar para apanhá-la, mas nunca voltaria; que dragões e lobos e bruxas não eram nada frente o que a esperava nas pedras de cada caminho já perdido antes do início. Cada sonho seu seria levado às ruínas do que um dia já fora e cada ruína deixaria cicatrizes como olhos brilhantes que a perseguiriam no escuro. Ela perdia os sonhos, as esperanças; ela perdia os contos de fadas que alimentavam o sangue em suas veias. Não tendo mais do que sonhar, a minha pequena se fechou entre portas e cadeados, chaves e fechaduras, apagou as luzes e se escondeu, fugindo dos contos, dos pontos, dos sonhos e da vida. E eu que apenas a observava de longe a cada conto sonhar todos os sonhos, viver todos os pontos e ter todos os finais, a procurei quando não mais vi seus sonhos voando por cima das nuvens. Lutei contra dragões, lobos e bruxas, invadi ruínas de velhos castelos, destronei futuros príncipes, a procurei adormecida e encontrei pedaços de sonhos rasgados sob o lençol; procurei pelo capuz vermelho e encontrei apenas a cesta destruída com todas as suas fantasias, busquei os sete sábios pedindo por uma direção de onde ela se encontrava e me deparei com sete estátuas gélidas e mudas, ao buscar pela casa dos doces encontrei migalhas de sonhos espalhadas por todas as folhas que cobriam o chão daquele outono frio. Eu a procurei por uma eternidade e mais um dia. E a encontrei chorando numa praça qualquer, sentada num pequeno banco onde antes houveram cisnes, com o olhar perdido pensando em todos os seus sonhos que foram derrubados, pesando cada erro que possa ter cometido para que todo seu mundo fosse levado abaixo. À medida que eu me aproximava eu via de perto todos os medos que ela tinha transformando-se num emaranhado de gritos abafados com outros medos que ela adquirira enquanto observa suas fantasias irem abaixo em meio ao que de mal a assolou. Mas quando pensei que poderia apertar a minha pequena nos braços e protegê-la, ela fugiu com medo de que eu fosse só alguma outra força que iria destruir o pouco que lhe restavam. Assustada, ela correu de mim, eu que sempre a protegi em todas as quedas, silenciosamente a segurando quando ela caía, para que nunca se machucasse demais, esperando uma oportunidade de me aproximar mais. Eu a segui por mais dias, dando um passo a mais cada dia, querendo retirar dela aquele medo de que o que restou dos sonhos que tinha fosse ainda mais destruído. Até o dia em que consegui tomá-la em meus braços, frágil como era, e nesse momento pude ver seu receio com medo do que eu pensara ao vê-la chorando na praça. Ah, a minha pequena! Sentiu medo de que eu tivesse-a visto como uma tola fraca que chorava no meio de céus e pedras! Teve medo de que eu não a achasse forte por chorar todas as dores que seu pequeno coração tão imenso de sentimentos sentia. Ah, pequena, tu tens de saber que isso em ti é uma virtude... Tens de saber que para cada dragão que te queima ou lobo que te assusta ou bruxa que te lança feitiços, existe para ti alguém que te protege, que te guarda, um guardião só teu. Tens de saber que os contos de fadas não acabam nas ruínas, tu podes reconstruí-los pedra por pedra que foi derrubada. Tens de saber que as lágrimas e sorrisos não são erros. Em cada caminho teu, eu estava lá te segurando para que a queda não fosse demasiado grande e esperando uma oportunidade de me apresentar como teu porto seguro, tua fortaleza. Para cada dragão, um guardião. E não te preocupas em um dia eu ir embora e te deixar sozinha com os dragões e lobos e bruxas, eu nunca irei, sempre estarei aqui. Lutando contra todos, te protegendo, além de todas as coisas que podem tentar nos fazer tomar caminhos diferentes. Não te preocupes, pequena, que sempre te guardarei, que sempre estarei aqui. E mesmo assim, se quiseres saber o que pensei ao te ver chorando, eu te sussurro ao pé do ouvido, como o maior segredo de minha pequena alma que nunca fui tão grande quanto ti:
- Parecias uma menininha de cinco anos de idade, com um vestidinho florido, sentada num banco qualquer a balançar os pés no vão, afastando os medos com uma musiquinha boba, imersa nas próprias fantasias.

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