“Arrasada, mas, de algum modo, não desfeita em pedaços.” Markus Zusak
E na madrugada perdida de um conto inacabado, os olhos dela brilharam sangue, vermelho injetado de álcool nas veias, o poderoso milagre da acentuada perda da razão. Na fumaça cinza de um cigarro que vinha da rua, fumava o cigarro que outro alguém trazia na boca naquela rua de subúrbio rico. Gosto de álcool e cinzas. Fogo e fumaça. A dor. O sonho perdido numa chuva ácida na noite de hoje que naquela hora já era ontem. Um beijo de sangue com sabor de adeus, adocicado como aquele mel guardado nos fundos de um armário de madeira. A madeira fria da casa naquela pele azulada de quem já havia congelado. Frio e gelo. Um paradoxo no meio do nada. O fogo e a fumaça, o frio e o gelo, o tudo e o nada. Um inalando, sentindo, anulando o outro. Duas presenças julgadas impossíveis de existirem juntas queimavam-na por dentro e a congelavam por fora. Não mantendo um equilíbrio, mas pressionando, rasgando, dilacerando pele e carne, ossos e articulações, tudo.